Atualizada em 31/03/2026
Contextualização
As Meliponas fazem parte do grupo das abelhas-nativas-sem-ferrão (ANSF ou ASF), cujo ferrão na verdade é atrofiado, e são insetos eussociais1 (vide glossário no final do texto) pertencentes à ordem Himenoptera, família Apidae, tribo Meliponini, gênero Melipona e subgênero Michmelia (Moure). O Brasil é o país que possui a maior diversidade de ANSF do mundo, com cerca de 300 espécies (Silveira et al. 2002; Camargo & Pedro 2013), das quais estima-se que cerca de 60 delas sejam manejáveis. Dentre os Meliponini, as Meliponas são nativas exclusivamente da região Neotropical (América do Sul, Central e as Ilhas do Caribe).
A criação manejável das ANSF, denominada de Meliponicultura, é uma atividade de importância econômica, sóciocultural e ambiental, que vem se tornando importante fonte alternativa de renda para pequenos produtores no país. Sua prática tem crescido em todo o Brasil e, com ela, a intensificação da movimentação (venda, troca) de colônias de diferentes espécies ou da mesma, mas de populações muito distantes, para diferentes regiões ou mesmo biomas. Como consequência de tal movimentação, sem critérios científicos, pode estar havendo a perda da diversidade genética da espécie manejada, tanto nas populações naturais como nos meliponários, prejudicando sua conservação e a rentabilidade da criação. Dentre as ANSF que mais estão sendo comercializadas para fora de suas áreas de ocorrência natural está a uruçu-amarela.
Existem várias espécies de ANSF popularmente conhecidas como uruçu-amarela. A distinção morfológica entre algumas delas é muito tênue ou mesmo imperceptível e, devido a isso, foram agrupadas em um complexo formado por 7 espécies-irmãs, denominado de complexo rufiventris, conforme Catálogo Moure: https://moure.cria.org.br/catalogue?id=34568; busca usando o termo “(rufiventris)”. Isto se dá em função de serem altamente aparentadas devido ao “curto” tempo na escala evolutiva em que começaram a se diferenciar geneticamente do ancestral comum. Cada espécie de uruçu-amarela é endêmica2 (vide glossário no final do texto) de um bioma específico, sendo as mais são confundidas entre si: a uruçu-amarela-do-Cerrado (Melipona rufiventris) do bioma Cerrado; a uruçu-amarela-da-caatinga (Melipona flavolineata) do bioma Caatinga; e a uruçu-amarela-da-mata-atlântica ou bugia (Melipona mondury) do bioma Mata Atlântica. Nesses casos, faz-se necessário o uso complementar de outras análises para a identificação taxonômica, por exemplo, a análise genética.
A uruçu-amarela-do-cerrado é atualmente considerada em perigo de extinção (Portaria MMA 148/2022). As principais ameaças às populações silvestres da uruçu-amarela-do-cerrado têm sido o desmatamento para expansão da fronteira agrícola e para implementação de empreendimentos imobiliários, as queimadas, a intoxicação por agrotóxicos, a movimentação de colônias para fora da área de ocorrência natural, com a introdução de inúmeras colônias da uruçu-amarela da Caatinga e da Mata Atlântica, muitas vezes vendidas como sendo a nativa do Cerrado devido à dificuldade em diferenciá-las. Dois tipos de reclamações passaram a ser muito comuns entre os criadores de uruçu-amarela: a da incerteza quanto à espécie da colônia que de fato adquiriu ou capturou em ninho-isca; e a da perda de colônias que foram compradas sadias de outros Estados e acabaram definhando até a morte. A primeira reclamação está relacionada ao fato de serem espécies-irmãs e, uma vez que se desconhece a região da procedência natural, não é mais possível distingui-las sem análise complementar. Também pode estar relacionada ao potencial de formar híbridos interespecíficos entre si, já que o potencial de hibridização entre elas é alto, a julgar pelos casos documentados na literatura internacional (Jensen et al. 2005; Keller et al. 2014; Byatt et al. 2016) e nacional (Nascimento et al. 2000; Resende 2012; Nogueira et al. 2014; Raad 2017; Rios 2018) de hibridização interespecífica3 (vide glossário no final do texto) entre abelhas aparentadas e pelo fato de serem espécies-irmãs (mais aparentadas ainda). Os híbridos normalmente apresentam características morfológicas de ambos, ainda que muito menos de um deles. A segunda reclamação está relacionada à perda ou ao decréscimo da adaptabilidade ambiental, que ocorre nas colônias introduzidas em regiões não-endêmicas, ainda que dentro do mesmo bioma de ocorrência natural da espécie. Isso se dá devido ao fato das abelhas de colônias trazidas de ecorregiões distintas das em que foram introduzidas poderem eventualmente acasalar com as abelhas das populações locais endêmicas (silvestres ou manejadas), o que não ocorreria naturalmente devido ao isolamento reprodutivo causado pelo distanciamento geográfico entre suas populações. Ao acasalarem, a recombinação de material genético dos genitores (não-endêmico e endêmico) gerará descendentes híbridos4 (vide glossário no final do texto) com perda de representações genéticas (alelos5 (vide glossário no final do texto)) que confeririam importantes adaptações para sobrevivência ao ambiente atual, já que um de seus genitores (o não-endêmico) lhes transmitiu geneticamente a adaptação ambiental para se desenvolver em outro ambiente (ecorregião), de onde são endêmicos (i.e., ocorrem naturalmente). A alta possibilidade da menor adaptabilidade ambiental pode ocorrer tanto em híbridos interespecíficos (i.e., formados de espécies diferentes), quanto em híbridos intraespecíficos (i.e., formados de genitores da mesma espécie, porém de populações diferentes), já que suas cargas genéticas representam uma mistura da adaptabilidade ambiental de seus genitores, maximamente ambientados onde são endêmicos.
Ainda que tais reclamações sejam frequentes, a maioria dos meliponicultores não se atenta quanto à relação causal de tais incômodos com a retirada das colônias de ANSF das áreas de ocorrência natural das espécies e das diferentes populações da mesma espécie. Há mais um fator agravante quanto ao trânsito, criação e comercialização indiscriminados de colônias de uruçu-amarela entre diferentes regiões do país. Trata-se da suspeita da existência, no Cerrado, de uma espécie ainda não identificada, do mesmo complexo de espécies da uruçu-amarela-do-cerrado e que esteja sendo confundida com ela, mais especificamente ao noroeste de Minas Gerais, nordeste de Goiás (Costa 2003; Melo 2003; Lopes 2004; Costa et al. 2005; Barni et al. 2007; Tavares et al. 2007; Dias 2008; Lopes 2008; Pires 2010) e no Distrito Federal. Assim sendo, a possibilidade de hibridização interespecífica ameaça também a sua conservação, antes mesmo de ser identificada, já que a insuficiência de uma barreira reprodutiva entre as espécies-irmãs é a mesma. É importante ressaltar que nesses casos, inicialmente, há um aumento na diversidade genética, no entanto, a médio e longo prazo a diversidade genética é reduzida devido à perda precoce dos indivíduos menos adaptados da população. Nem todo aumento na diversidade genética é benéfico, porque pode causar depressão exogâmica, conforme explicado acima. Por outro lado, baixa diversidade genética pode causar depressão endogâmica, isto é, perda de colônias geradas a partir de genitores altamente aparentados (problema da endogamia que gera colônias zanganeiras).
Muitos criadores estão alheios ao fato de que qualquer risco à conservação da uruçu-amarela ameaça diretamente a sustentabilidade de sua exploração comercial. De igual forma, muitos agentes do poder público estão desinformados quanto à extensão dos riscos e, também, da necessidade da avaliação das políticas vigentes para a adoção de medidas que melhor previnam ou minimizem tais riscos.
A Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia e parceiros UnB, AMe-DF, UFV, ICMBio, EMATER-DF, UESB, INPA e IFBaiano, com o apoio financeiro da FAPDF, conduziu o Projeto Rufi (título: Avaliação da diversidade genética da abelha nativa uruçu-amarela-do-cerrado e do risco da movimentação dos ninhos), entre Janeiro/2022 a Janeiro/2025, para avaliar o risco da perda de diversidade genética em populações silvestres da uruçu-amarela-do-cerrado devido à movimentação (translocação) indiscriminada e intensa de colônias para fora da área de ocorrência natural. Inicialmente a pesquisa abrangeria apenas o Cerrado, no entanto devido a observação da existência de populações manejadas das espécies-irmãs não-endêmicas uruçu-amarela-da-caatinga e da uruçu-amarela-da-mata-atlântica na região do Cerrado, foi preciso também incluí-las no projeto.
No Brasil, ainda não havia nenhum dado coletado em ampla área amostral em colônias silvestres e manejadas da uruçu-amarela para avaliar os riscos genéticos da intensa e indiscriminada movimentação de colônias e da criação de espécies ou colônias de populações não-endêmicos sobre as espécies ou populações silvestres endêmicas. O Projeto Rufi foi pioneiro no levantamento de dados genéticos e taxonômicos coletados em centenas de colônias, em 106 municípios/regiões administrativas de 11 Estados e o Distrito Federal (mais de 20 mil km percorridos em expedições de coletas), tendo 158 colaboradores, em grande parte meliponicultores. Os riscos que estão sendo diagnosticados no projeto são utilizados como um estudo de caso para sensibilizar e conscientizar os criadores e os agentes do poder público sobre os riscos ambientais associados ao trânsito e a criação de espécies ou populações de uruçu-amarela não-endêmicas, bem como para orientar quanto a recomendações de manejo e promover a adoção de medidas pelo Governo que possibilitem melhores meios de minimizá-los ou preveni-los. É importante ressaltar que não objetiva-se de forma alguma coibir a criação da uruçu-amarela ou tornar sua regularização impraticável, pelo contrário. A Embrapa é uma empresa séria, com mais de 50 anos, que sempre promoveu o uso sustentável dos recursos naturais e o avanço da produção agropecuária no Brasil e, portanto, o desenvolvimento sócio-econômico pela busca de critérios técnicos pautados em conhecimentos científicos de qualidade. Não há qualquer conflito de interesse e, sobretudo, a Embrapa acredita que os meliponicultores são os protagonistas fundamentais para garantir a conservação da uruçu-amarela. Toda a pesquisa foi feita (e continuará sendo nos desdobramentos futuros) de forma imparcial, transparente e envolvendo os meliponicultores em todas as etapas.
Figura 1: Mapa da amostragem da uruçu-amarela pelo Brasil, feita no âmbito do projeto. Os principais morfotipos identificados na análise morfológica estão representados com marcadores em cores diferentes e, em sua maior parte, são relativos a ninhos naturais. A) As 830 colônias (naturais e manejadas) com abelhas (campeiras) amostradas. As 380 colônias com análise genética estão nomeadas. Dentre elas, as 40 com nome em cor rosa foram retiradas da análise por terem menos de 10 mil marcadores genéticos. B) Amostragem em colônias no Distrito Federal e entorno.
Das 830 colônias silvestres e manejadas, com coleta de 10 a 20 abelhas campeiras por colônia, apenas 380 colônias foram analisadas geneticamente. O restante das colônias aguarda a captação de recurso complementar para viabilizar as análises genéticas. Apenas colônias consideradas naturais foram analisadas por taxonomia clássica (via caracteres-diagnóstico da morfologia corporal) e morfometria geométrica das asas. A designação taxonômica definitiva será feita por taxonomia integrativa, isto é, integrando os resultados genéticos com os da taxonomia clássica e da morfometria geométrica das asas.
Os principais resultados preliminares obtidos foram:
- Identificação de 4 principais morfotipos (Figura 2);
- Identificação de 5 agrupamentos morfológicos baseados na morfometria geométrica das asas (Figura 3);
- Identificação de 7 a 10 agrupamentos genéticos, que indicam colônias de populações diferentes da mesma espécie, de espécies diferentes e híbridas intra ou interespecíficos (Figura 4);
- Excesso de heterozigosidade esperada, tanto nas colônias naturais quanto nas manejadas, o que é indicativo de populações com pequenos tamanhos efetivos.
Figura 2: Principais morfotipos identificados. Ao todo, 7 morfotipos foram identificados, no entanto, como os morfotipos de 4 a 6 são variantes do morfotipo 3, eles não estão representados.
Figura 3: Análise morfométrica geométrica das asas. Os pontos amarelos correspondem aos que foram utilizados como marcos para as medições nas abelhas de cada colônia natural analisada. O gráfico à direita mostra o resultado da análise de componentes principais (PCA) que indica a evidência da existência de pelo menos 5 agrupamentos morfológicos.
Figura 4: Agrupamentos genéticos (abreviados por “k”) identificados. Cada linha vertical ou barra representa uma colônia das 340 analisadas geneticamente, tanto naturais, quanto manejadas. Cada cor representa um agrupamento genético. Barras com diferentes cores representam os híbridos intra e interespecíficos. À esquerda estão apresentados os k= 7 a 10 agrupamentos. À direita estão representadas as colônias considerando 10 agrupamentos genéticos.
Impactos ambientais potenciais identificados
Os impactos ambientais potenciais prospectados no projeto estão no Quadro 1 e são pautados nos resultados obtidos pela análise genômica por RADseq utilizando marcadores moleculares obtidos a partir da genotipagem do catálogo de loci de 340 colônias, montado pela metodologia de novo no programa Stacks v2.65 (Catchen et al. 2011; Catchen et al. 2013; Rochette & Catchen 2017; Rochette et al. 2019). Os dados de genotipagem serão reanalisados utilizando outras metodologias para validação dos resultados apresentados e serão atualizados, caso seja necessário.
Quadro 1: Impacto ambiental potencial prospectado no projeto e prazo para ocorrer o efeito adverso, caso continue havendo intensa e contínua translocação indiscriminada de colônias de espécies ou populações de uruçu-amarela para fora das áreas de ocorrência natural.
| Resultado obtido no projeto | Impacto ambiental associado | Efeito adverso (prazo) |
|---|---|---|
| Geração de híbridos interespecíficos entre as uruçus-amarelas do Cerrado, da Caatinga e da Mata Atlântica | Perda das espécies "parentais" | Médio e longo prazo |
| Geração de híbridos intraespecíficos entre populações silvestres e as não-endêmicas | Perda de adaptação local (depressão por exogamia) | Curto prazo |
| Homogeneização genética | Médio e longo prazo |
Recomendação de manejo aos criadores
- Não compre, venda, transporte ou crie espécies que não sejam de ocorrência local.
- Não compre, venda, transporte ou crie colônias que não sejam da região, ainda que a espécie ocorra naturalmente no mesmo bioma.
- Obtenha colônias por captura em ninho-isca ou de meliponários locais que apenas tenham criação de espécies e populações de ocorrência local.
- Registre para: a) captura em ninho-isca: data e local; e b) aquisição: data, procedência (município) e nome do fornecedor.
- Registre dados das divisões: data; qual é mãe e filha; tipo: 1×1, 2×1, etc.
- Registre dados de manejo: troca de discos de cria; doação de rainhas; espécies que tenha; quando a colônia foi introduzida ou retirada.
- Registre dados de venda: data; para quem vendeu; para onde foi.
- Cadastre e regularize o meliponário no(s) órgão(s) competente(s).
- Se atente à legislação municipal, estadual (distrital) e federal relativas às abelhas nativas.
- Faça os registros de dados das colônias em um local onde poderá guardar, atualizar e consultar sempre que precisar. São importantes para o controle da diversidade genética do plantel, tanto para você, quanto para os meliponários vizinhos, quanto para pesquisadores, órgãos ambientais e de controle sanitário.
- Não retire colônias silvestres da natureza, a não ser em caso de perigo real e iminente. É crime ambiental (Lei 9.605/1998).
- Invista na capacitação para manejo responsável e eficiente.
- Colabore, sempre que possível, com pesquisas científicas sobre as abelhas nativas.
- WhatsApp: (61) 99851-9712
- E-mail do projeto: ninhos.naturais@gmail.com
- Instagram: @projeto.rufiventris
1Insetos eussociais: formam colônias, apresentam sobreposição de gerações, divisão de tarefas e cooperação nos cuidados com a prole.
2 Endêmica: nativa ou restrita a determinada região geográfica.
3Hibridização interespecífica: mistura genética entre indivíduos de espécies diferentes, porém muito aparentadas sem ou com insuficiente barreira reprodutiva entre elas.
4 Híbridos: indivíduos gerados a partir de genitores de populações diferentes da mesma espécie (híbridos INTRAespecíficos) ou entre indivíduos de populações de diferentes espécies (híbridos INTERespecíficos).
5 Alelos: diferentes representações genéticas do mesmo gene, conferidas por algumas diferenças na sequência de nucleotídeos da fita de DNA.
Referências bibliográficas
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